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Paisagem da janela

 Janela do apto. na Gustavo Sampaio. Leme, mil novecentos noventa e poucos. in Sexteto , de Henry Miller.

Notas sobre poesia

O poema deve expor o instante a quem o lê em vez de remeter ao instante em que foi escrito Para o poema todo poeta é póstumo Para a poesia recém-nascido Eu faço o poema e o poema faz o poeta O poema faz poetas A poesia não tem significado no poema Depois de cada poema um silêncio diverso O presente, com enfocá-lo, se faz remoto em um cenário A poesia é uma sensação do poema Meu fragmento paira ...  espectral ...  concreto ...  espectral Para forjar a si mesmo não há molde Antes e depois do poema a poesia é a mesma sem o poema Mímica de lábios A que nunca esteve, o que estando, se extravia A mutação da mesma imagem A aura escura do não dito ......  O ímã do silêncio Se tento outra voz me dubla Se calo sou só eu quem cala O poema é a paisagem contemplada e o modelo de si mesmo Dar-se a ver é desconhecer-se no olhar do outro Mas tudo já sabias desde o início O esquecer que sabias Justa...

O Estrangeiro

......................................... Meus amigos partiram em turnos, descrentes da espera. Resto só na boca da gruta. O Tritão gravado na cova, a melena de moluscos mortos, o mar extinto O pampa, a nós sem fim desde sempre, respiro em um pouco de ar Como se por anos a fio eu olhara esta paisagem nunca antes vista Um pássaro único, em rota eterna, descreve o arco do infinito A terra aberta Toda manto Imóvel à beira do fogo, onde os homens são antigos Em cada gesto reverência, em cada olhar adoração O lençol da calma desdobra as quatro bordas do campo que o verdor do campo venta Assisto ao ocaso dos séculos

Conversa com J. Secundino

.........................................                               Encontrei Thomaz Guilherme, meu amigo de infância , na arborizada casa onde mora e que pertenceu ao seu bisavô paterno, no centro de Sant' Ana do Livramento, entre os dias 14 e 21 de agosto de 2004. Gravei três sessões de entrevistas e as editei para a publicação comemorativa dos vinte anos de O Gato Viúvo, uma revista poética bilingue local criada por Thomaz no verão de 84. Thomaz Albornoz Neves vive hoje com Graciela , para quem escreveu os versos do seu primeiro livro, Renée , também no início dos anos 80. O casal tem dois filhos, quatro cachorros e duas gatas. I 14 de agosto de 2004 Sobre o que escreves? Já tive mais interesse em teorizar o que faço. Me custa construir um sistema fechado de pensamento sobre o que quer seja. Penso intuindo, em colage...

"Exílio. O poema quântico". por Juva Batella

Os poemas que compõem o grande poema que se lê em Exílio não são narrativos; funcionam, antes, como fragmentos, e não como etapas ou camadas. A poesia de Thomaz Albornoz Neves não é, portanto, do tipo retórica ou esparramada, e compõe-se num espaço textual tão conciso, que o leitor — não tendo para onde fazer correrem os olhos — deve permanecer onde está, com o olhar virado para si e tentando, dentro de si, encontrar, neste espaço privado, uma equivalência pessoal para o jogo de espelhos de outro espaço privado: o espaço do poeta, ou, antes, do olhar do poeta sobre o mundo, sobre o seu fazer poético e ainda sobre o seu próprio olhar acerca deste fazer. A poesia de Thomaz Albornoz Neves não é fácil de se ler às pressas. Lendo-a às pressas, ela nos escapa. Ler poesia, em geral, não é fácil. É, antes, um movimento que caminha contrário à automatização que se ganha com o tempo e com os tempos dedicados à leitura de prosa — este correr de olhos em que saltamos de uma palavra à outra, rec...

NICHITA STANESCU

                                              Ploiesti 1933 – Bucarest , 1983 DÉCIMA PRIMEIRA ELEGIA Início dos trabalhos de primavera I O coração maior do que o corpo salta de improviso por tudo e se abate em cada parte atrás dele, sobre ele como uma chuva de lava dilacerante Tu, conteúdo maior que a forma, eis o conhecimento de si, eis porque na dor a matéria nasce de si mesma para poder morrer Morre apenas aquilo que conhece a si mesmo nasce apenas aquilo que testemunha a si mesmo Devo correr, tenho me dito, mas primeiro devo retornar à alma na direção dos meus maiores imóveis, retirados nas torres dos próprios ossos, semelhante a medula imóvel como as coisas juntas no fim Posso correr porque eles estão em mim Correrei, porque somente o que está imóvel em si consegue mover-se apenas aquilo que está sozinho em si se acasala; e sabe que, não visto, o coração ru...

RENÉ CHAR

Isle sur Sorgue 1907 – 1988 QUATRO FASCINANTES I O TOURO Nunca está escuro quando morres rodeado por trevas que urram Sol de dois extremos semelhantes Fera do amor, verdade na espada Casal que se apunhala único entre todos II A TRUTA Margens que desabam adornadas a fim de cobrir todo o espelho, Grava onde o barco balbucia que a corrente ergue e persegue, Relva, relva, sempre estirada, Relva, relva, sempre e sem trégua, O que se torna vossa criatura nas tormentas transparentes onde a precipita seu coração? III A SERPENTE Príncipe dos contrasensos, exercita meu amor para evitar ao seu Senhor que odeio por não ter mais que escura repressão ou suntuosa esperança Revanche das tuas cores, bondosa serpente na felpa do bosque e em todas as casas. Pelo laço que une a luz ao medo, ameaças fugir, oh serpente marginal! IV A COTOVIA Extrema brasa do céu e primeiro ardor do dia Incrustada na aurora canta a terra agitada Arame de sinos dona do seu ...

PAN, de Lucien Blaga

Lancram, Transilvânia 1895 – 1961 PAN Coberto por folhas secas Pan jaz numa rocha Está velho e cego As pálpebras de pedra Em vão tenta aguçar a visão mas seus olhos estão fechados, como lesma ao caracol Nos lábios gotas mornas de sereno Uma duas três A natureza mata a sede do seu amo Estende o braço, segura um galho e apalpa com leve carícia seus brotos Da moita um cordeiro se aproxima O cego o ouve e sorri, Nenhuma alegria é maior para Pan que a de ter nas mãos a cabeça dos cordeiros tatear os cornos entre os cachos de lã Silêncio Os bichos em torno dormitam E também ele boceja pondera e diz: – As gotas de sereno estão mornas e grandes os cornos maduram nas gemas inchadas É primavera, talvez?

A concisão que distingue, de Fernando Py, sobre Sol sem Imagem

FERNANDO PY O que distingue, à primeira vista, a poesia de Thomaz Albornoz Neves, é a sua concisão. Todos os poemas de Sol sem Imagem, sobretudo Oráculo, O Taumaturgo, Pampa, A Onda, A Ostra, e os das séries A Morte e O Ato, têm em comum a escassez verbal. Na grande maioria dos casos o poema se resolve em poucas palavras, num vocabulário às vezes recorrente, não por pobreza de expressão e sim por um movimento reiterativo que está na própria estrutura do poema e que busca gravar, na memória do leitor, a imagem antes construída. No poema que abre a coletânea, O Estrangeiro, o poeta configura uma espécie de isolamento pessoal (literário? estético?), depois que os amigos partiram em turnos descrentes da espera. Esse isolamento, essa atitude de recolhimento em si mesmo, corresponderia não só à posição do poeta como indivíduo, mas também como criador. No primeiro caso, como no segundo, seria ele um “estrangeiro” - quer na sociedade em que vive, quer entre seus pares. E mais ainda: es...

Rigor e concisão numa imensa página em branco, de José Lino Grünewald, sobre Sol sem imagem

                                                                    JOSÉ LINO GRÜNEWALD Sol sem Imagem é o título do terceiro livro de poemas de Thomaz Albornoz Neves. Trata-se de uma edição bilíngue português-espanhol, em decorrência dos contatos do autor com outros países do continente hispano-americano. Quem fez a versão para o espanhol foi o também poeta argentino Rodolfo Alonso que, além disso, é crítico, ensaísta e editor; difundiu a poesia brasileira na América latina. Ele também redigiu a orelha deste volume, onde fala de “uma voz íntima mas quase sideral, imersa em um silêncio enorme, que me parecia tanto o dos amplos espaços estelares como o de uma imensa página em branco”. Acompanham o livro uma introdução...

VLADIMIR HOLAN

                                                                                            Praga 1905-1980 EM UM CEMITÉRIO DE PROVÍNCIA JUNTO AO MURO DOS SUICIDAS Aqui, onde o pasto roça a foto dos defuntos e a freira das lápides tem o gesto calvo do mármore ao grasnar dos gansos ... sim, cada coisa aqui testemunha que o homem não foi criado mas feito. Também as coisas são feitas, e basta. O homem, e as coisas feitas para advertir os mortos! As coisas esperam. O homem pressente. Envelhecem e sobrevivem. É imortal e perece. As coisas são abandonadas e ele está sozinho E mais só não está somente quando contra si mesma se revolta a vida.

Lições do Exílio, por Ivan Junqueira

. . Sempre percebi, na poesia de Thomaz Albornoz Neves, um obstinado empenho no sentido de procurar dizer o máximo com um mínimo de palavras, o que talvez explique duas de suas mais flagrantes características: uma, de caráter estrutural, ou seja, a fragmentação do discurso; outra, de cunho expressivo (ou, se preferirem, formal), que se revela graças a uma certa espécie de redução do enunciado verbal que poderíamos chamar aqui de capsularismo aforismático, algo sentencioso, mas de inequívoca inspiração lírica. E se ambas estão presentes no primeiro de seus livros em que pus os olhos, Sol sem imagem (1996), mais ainda se evidenciam neste Exílio, que o autor acaba de dar à estampa e que, segundo ele próprio, seria antes “um diário de notas circular (...), baseado em uma experiência de extrema solidão, submetida a uma saturação da linguagem”. Em longo e circunstanciado prefácio que escreveu àquela primeira coletânea, Bruno Tolentino filia o poeta à linhagem do fragmentarismo ungaret...