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Rigor e concisão numa imensa página em branco, de José Lino Grünewald, sobre Sol sem imagem


                                                                    JOSÉ LINO GRÜNEWALD



Sol sem Imagem é o título do terceiro livro de poemas de Thomaz Albornoz Neves. Trata-se de uma edição bilíngue português-espanhol, em decorrência dos contatos do autor com outros países do continente hispano-americano. Quem fez a versão para o espanhol foi o também poeta argentino Rodolfo Alonso que, além disso, é crítico, ensaísta e editor; difundiu a poesia brasileira na América latina. Ele também redigiu a orelha deste volume, onde fala de “uma voz íntima mas quase sideral, imersa em um silêncio enorme, que me parecia tanto o dos amplos espaços estelares como o de uma imensa página em branco”.
Acompanham o livro uma introdução do poeta Bruno Tolentino, que o compara com a grande tradição mediterrânea moderna, e um apêndice, “Diálogo sobre um percurso poético”, que consiste numa entrevista com o escritor João Antonio. Aqui emergem alguns pensamentos de Thoma Albornoz: “Desconfio do espontâneo e não gosto do sentimental” ; “Não escrevo nada pensando no percurso literário”; “Ao escrever estamos ligados à diversas tradições e não somente à brasileira”; “Prefiro mil vezes o verso bem feito ao argumento vencedor”. Vamos então à obra em si. De saída, Albornoz Neves mostra-se coerente com a primeira frase sua que transcrevemos acima. Em contraposição ao espontâneo e ao sentimental, temos o rigor e a concisão. Às vezes surgem autênticos poemas-pílula como

O GIRASSOL

Vira
girassol
o olho no olho do sol

Ou

A OSTRA

É ostra
por dentro
a pérola


Alíás todo o livro parece um colar de haicais, naquela permuta permanente entre imagem e idéia ou, como se diria à la Ezra Pound, fanopéia & logopéia.
O livro está dividido em duas partes. A primeira, repetindo o seu título, Sol sem Imagem apresenta 20 poemas, todos com título. A segunda denominada “O Sono”, é constituida de 16 mini poemas engatados numa espécie de especulação parametafísica em torno de uma mulher encerrando-se com uma visão antológica

É dia.

No centro
da luz
raias

A luz é tua sombra

Na primeira parte, além do já mencionado O “Girassol”, pode-se registrar várias sequências, em o “Touro Cego”, fanopéia pura:

O campo é estelar. Sem céu.
O vento entalha esses no ar.

o breve poema “A Morte II”:

Em silêncio
a passagem
Sol sem imagem

uma pedra de toque em “O Poeta”:

Ocos ecoam arcos no ar
Enfim, “O Ato I”:

Vejo pela primeira vez a cada instante
e o esquecer que vejo me perpetua
semelhante.

“O Ato II”:

Detido no movimento
o corpo é ponto entre pontos
que avançam em arco no espaço
“O Ato III”:

O espaço mais espesso
suspenso pelo silêncio
de sombras que se transpassam

parecem apresentar meditações paralelas às induções pré-socráticas. E “O Vaso”, para o qual um Wallace Stevens, em mínimo múltiplo comum, bateria palmas:

Ao canto da parede branca
o vaso branco

a reta retém a curva ecoa

“O Sono”: uma trilha de flashes naquele vai e vem imagem/idéia. A vertente Ungaretti. A imantação Montale. Um dos maiores e mais ricos poemas dos últimos anos. Vamos a alguns trechos de avis rara:

No lago de calor
sou ar acorrentado

e

A transparência é teu peso
e te rodeia o vazio que circundas

ou

O luar de tua nuca sonha ser face
mais este

O arco do gesto propaga ondas
resplendem ecos de cascatas
o vazio transborda as margens do espaço

e ainda

És o lago do olhar
na ausência dos olhos

Dormes no cristal escuro
Um fio de relva divide a transparência
Como vem dito na contracapa, “o máximo de significado no mínimo de palavras”. Voltando a lembrar Pound (“ABC da Literatura”): a poesia é dichten, isto é, condensar.



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