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Fecho os olhos
- O que há além da margem escura, senão escuridão?
A maravilha está aqui
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Dezembro 24, 2011
Dezembro 17, 2011
Ao fim do Campo
...........................................................para a Celina
Outro amanhecer branco. Assim tem sido por todo o início do outono: a terra com aura, em paz. Mas eu acordara antes, às 3 da madrugada, com os guinchos dos morcegos envenenados agonizando no sótão de duas águas da casa. Liguei a televisão para não ouví-los e nem os longos planos-sequência no deserto de David Lean me devolveram o sono. Às 6 horas, Negro aos pés da cama levantou, entreabriu a porta com o focinho, circulou pela casa e voltou com Oso, Piti e Pelusa resfolegando para sair. Os levei ao pátio na frente da casa onde não correm o risco de topar com algum rato procurando seu lugar aberto para morrer. Os ratos estão pelo jardim, nos fundos. Já os morcegos ficam no forro, esbatendo contra as telhas francesas, enjaulados pelo sol.
— Mueren allá arriba, pero no se preocupe, que el martes vengo para limpiar el altillo. —Me disse ontem, o dedetizador—.
Cevo meu mate na biblioteca, sentindo na presença da morte ao fundo da casa e acima de mim uma extensão da minha própria. E se evito pensar na agonia dos morcegos é pela mesma razão que evito qualquer pensamento sobre a minha morte: para não torná-la mais real do que ela já é. Reponho na estante o livro de Lawrence que o filme me levara folhear e cato a pilha de jornais paulistas trazidos por minha mãe uma vez por semana. Procuro alguma resenha sobre poesia capaz de mudar meu estado de espírito, mas elas simplesmente foram banidas dos suplementos culturais. Má poesia, imagino. Pelo celular recebo uma mensagem de texto do capataz. Pede tinta para marcar as ovelhas que não foram vendidas, curabicheira líquida e ivermetina para o gado. Sinto sono e volto para a cama. Kuka me acorda às 10 da manhã com café, frutas e pão recém trazido do forno da Ripan. Radiante, me sussurra:
— Marília llamó ayer de noche, dice que espera un hijo.
— No te puedo creer, deveras?
— Tu madre está em alas y quiere acompañarte hoy a campaña.
Telefono para Nova Iorque, falo com minha irmã que me chama de bruxo, e depois ao Rio e converso com o futuro pai. Na verdade foi o Cigano quem leu, numa tirada de búzios meses atrás, que uma criança estava a caminho — do teu sangue, abençoada —disse ele— mostrando as grossas veias do braço sobre o prato de palha trançada.
Visto a bombacha de verão, uma camisa leve e vou pela sombra para a veterinária da esquina coçando a barba de três dias. Compro 1200 doses de vacina contra a raiva conservadas numa caixa de isopor com gelo. Por sorte meus morcegos domésticos se alimentam de frutos e insetos, não fosse tanto excremento acumulando no forro nossa convivência seria pacífica. Já os da Coxilha Negra são hematófagos. Vou vacinar até os cavalos. Levo também uma antena para a TV a bateria, botas de couro para o Gustavo e o curabicheira. Volto para almoçar e Gracielita conserva a boa nova no ar da casa. Santiago me diz que a dinda do Juan Thomaz está esperando um bebê. Juan dando pulinhos e apertando os punhos acha que é menina. Ao sair, recomendo que os cães devem seguir dentro de casa, especialmente Oso (Esse filhote de ovelheiro, que Juan ganhou de aniversário do Santosmauro, persegue tudo que se move no pátio, de beija-flor a fila de formiga). Escondo a caixa de isopor com a anti-rábica brasileira atrás das duas garrafas de gás, da antena e dos meus arreios emalados (não tem aduaneiro que goste do cheiro que o pelego deixa nas mãos), compro uma bolsa de bolachas secas na padaria e passo pela casa da minha mãe. Uma das vantagens de ter este jipe aqui na fronteira é não esperar na fila da barreira alfandegária. Os fiscais o reconhecem de longe e me fazem passar sem revisar o que contrabandeio para a estância do Uruguai. Mesmo assim, só descanso no volante depois das Curticeiras. É ali que a viagem à La Rosada começa para mim.
— Quero que me leves para ver nos fundos do campo o mato daquele precipício. —Diz minha mãe, apontando o contorno onde mal se adivinha os morros de La Rosada no horizonte.
— Eu descarrego esta tralha na estância, reviso o gado no banho e vamos até o potreiro do 5, onde se vê todo este vale de cima, a perder de vista. Depois te levo às lagoas de pedra no meio do mato.
Passando por uma clareira no pinheiral da reflorestação — de troncos tão uniformes que parecem artificiais—, a mãe me mostra a vala onde ela caiu com seu carro procurando abrigo na tormenta do Carnaval. Março teve chuva. A seca que assolou o Uruguai e a Argentina durante todo o verão terminou. Da estrada, pela janela, talvez pela velocidade, a impressão que tenho é que o verde do campo reverbera.
— Se te sentas hoje no banco do umbu dá para ouvir o pasto crescer.— digo.
— Não conheço quem ouça pasto. E menos ainda com tanta cigarra cantando.
— Bello faria exercícios de atenção com ele. Claro que com as cigarras não dá. Adoro o outono da fronteira. O céu branco. É quando os greens do campo de golfe estão no ponto para patear.
— Tua irmã está uma pilha.
— Imagino. De quanto será a gestação?
— Só duas semanas, menino. Parou com a pílula e engravidou.
—Então foi justo antes de ir visitar a Célia. Onde mesmo é que a Marília passou o Carnaval?
— Devon. O marido da Célia tem um estúdio lá. Vende suas gravuras para toda a Inglaterra. São daquele tipo distribuído para a Harrods, e ele ganhou dinheiro de uma hora para outra, comprou uma Ferrari, imagina. E depois teve síndrome do pânico.
— Um dos melhores golfistas do Brasil parou de jogar por causa do pânico. Mas superou. Joguei com ele no dia de treino do Aberto para profissionais do ano passado.
— O Marcelo também. Tinha taquicardia, precisou medicar a pressão arterial e fazer tratamento durante uns três anos.
— Mas achei ele bem, no lançamento do meu livro.
— Sim, menino, agora ele está bem.
— Ele parou de tocar piano enquanto estava doente?
— Não, prosseguiu com seus concertos e as aulas na Universidade. Gravou, inclusive.
Nós já havíamos deixado para trás a ruta 5, que cruza o país de Rivera até Montevidéu, e girado à noroeste rumo à Artigas e Quaraí. Eu dirigia agora pela 30, uma sinuosa estrada vicinal de asfalto estreita demais para caminhões em sentido contrário. A paisagem de encostas arenosas e casas de barro onde se cultivava melancia, adquiriu por conta da reflorestação um falso ar canadense, fechada pelo bosque e sem distâncias. Um dos impactos dessa mudança no ecossistema local foi a proliferação de morcegos e a epidemia de raiva nos animais da região —sem falar no aumento das cobras e das rotas de escape do gado roubado—. Outro foi o boom dos preços dos até então desvalorizados campos de areia, pobres para a pecuária, mas os mais indicados para o plantio predatório dessas espécies de crescimento rápido da indústria madeireira. (O predatório vai por conta de quem teme a desertificação depois que o ciclo dos plantios esgotar o solo.) Mas como há males que também vem para bem, graças as oscilações de um mercado em alta, pudemos vender por bom dinheiro a valorizada Los Moros, no remoto Rio Negro, e comprar a ainda barata La Rosada, de maior área e ao lado do Posto Branco, unificando as duas estâncias da família. Assim voltei para o horizonte da fronteira onde eu crescera.
— Bello faria exercícios de atenção com ele. Claro que com as cigarras não dá. Adoro o outono da fronteira. O céu branco. É quando os greens do campo de golfe estão no ponto para patear.
— Tua irmã está uma pilha.
— Imagino. De quanto será a gestação?
— Só duas semanas, menino. Parou com a pílula e engravidou.
—Então foi justo antes de ir visitar a Célia. Onde mesmo é que a Marília passou o Carnaval?
— Devon. O marido da Célia tem um estúdio lá. Vende suas gravuras para toda a Inglaterra. São daquele tipo distribuído para a Harrods, e ele ganhou dinheiro de uma hora para outra, comprou uma Ferrari, imagina. E depois teve síndrome do pânico.
— Um dos melhores golfistas do Brasil parou de jogar por causa do pânico. Mas superou. Joguei com ele no dia de treino do Aberto para profissionais do ano passado.
— O Marcelo também. Tinha taquicardia, precisou medicar a pressão arterial e fazer tratamento durante uns três anos.
— Mas achei ele bem, no lançamento do meu livro.
— Sim, menino, agora ele está bem.
— Ele parou de tocar piano enquanto estava doente?
— Não, prosseguiu com seus concertos e as aulas na Universidade. Gravou, inclusive.
Nós já havíamos deixado para trás a ruta 5, que cruza o país de Rivera até Montevidéu, e girado à noroeste rumo à Artigas e Quaraí. Eu dirigia agora pela 30, uma sinuosa estrada vicinal de asfalto estreita demais para caminhões em sentido contrário. A paisagem de encostas arenosas e casas de barro onde se cultivava melancia, adquiriu por conta da reflorestação um falso ar canadense, fechada pelo bosque e sem distâncias. Um dos impactos dessa mudança no ecossistema local foi a proliferação de morcegos e a epidemia de raiva nos animais da região —sem falar no aumento das cobras e das rotas de escape do gado roubado—. Outro foi o boom dos preços dos até então desvalorizados campos de areia, pobres para a pecuária, mas os mais indicados para o plantio predatório dessas espécies de crescimento rápido da indústria madeireira. (O predatório vai por conta de quem teme a desertificação depois que o ciclo dos plantios esgotar o solo.) Mas como há males que também vem para bem, graças as oscilações de um mercado em alta, pudemos vender por bom dinheiro a valorizada Los Moros, no remoto Rio Negro, e comprar a ainda barata La Rosada, de maior área e ao lado do Posto Branco, unificando as duas estâncias da família. Assim voltei para o horizonte da fronteira onde eu crescera.
Alcançamos o topo da subida da Pena, 80 metros acima do vale reflorestado, engolindo em seco para destapar os ouvidos. Dar com a vastidão do pampa sempre faz com eu me sinta em casa.
— Vou parar ali em Masoller e levantar umas notas na veterinária do Machado. Tenho que comprar a ivermetina aqui. — Lhe digo.
— Porque não compraste na cidade?
—Por boa vizinhança. Assim quando preciso de algo com urgência na estância, ele manda o filho do velho Luzardo levar.
— Aquele que atirava pedras em quem passava de motocicleta na curva do marco?
— Este é o menor. Aquele enlouqueceu.
15 quilometros depois da Pena, duas ruazinhas de vivendas populares, a escola, o mercado da Dona Irene e o posto de gasolina formam o que se conhece por Masoller. Uma cruz de madeira no meio de um terreno deserto marcava, antes do partido Blanco mandar construir um obelisco, o lugar onde balearam o revolucionário Aparício Saravia, há mais de cem anos. O povoado do lado brasileiro é parecido. Três ruas de casas populares, dois bolichos e O Gato Verde, o prostíbulo. Não há escola, nem caudilhos. A veterinária é uma peça de tábuas com piso de chão batido onde o Machado empilha caixas e frascos ao redor de uma salamandra apagada. Levanto as notas e a ivermetina. Ao manobrar para ir embora, não vejo o pilar de sinalização do telefone público encoberto pelo pasto alto. O baque da coluna de cimento contra o pára-choque fez com que Machado e um gaúcho que pagava a sua conta saíssem.
—Não fui eu quem botou esse toco aí, tchê. Reclama lá na telefônica dos castelhanos. — diz Machado, divertido, enquanto eu desamasso a placa no pára-choque dianteiro.
— Agora ninguém mais vai bater nele. —Aceno, dando ré para longe do escombro.
Minha mãe foca o gaúcho todo pilchado —lenço branco, bota e bombacha com chapéu de aba larga— enquanto boleia a perna na motocicleta com a caixa de compras apoiada sobre o tanque de gasolina, mas não tira a fotografia.
— Esperavas que estivesse a cavalo?
— Ele sobe na moto como se fosse um cavalo. Mas deixa que se mantenha na frente. Eu quero fotografar no corredor, contra a cerca de pedra, quando ele passar o marco da linha divisória que está dentro do Posto Branco.
Sabia o lugar a que ela se referia, com a barragem do arroz ao fundo entre as ilhas de eucaliptos.
—Buenas.— Gritei ao passar. —Desculpe a poeira!
— Dá-lhe no más que ninguém se afoga em terra.
Ela tira a foto justo antes que a nuvem de terra o engolfasse. Na encruzilhada desviamos do caminho para o Posto Branco e tomamos o corredor da direita.
—Ficou bem, parece que ele vem saindo da onda de pó. Diz ela, olhando a foto na pantalha da máquina.
— Pegou a barragem lá embaixo?
—Sim, o rebrilho do sol na água também.
— Terminei a leitura dos teus originais. –Digo à minha mãe.
—E que te pareceu?
— Gostei do título "Campo Sem-fim", só não entendi o hífen.
— Serve de nome e também de adjetivo.
Eu olho o campo sem fim que nos rodeia e me agrada ainda mais a sua escolha.
— Comparado a "dos Cadernos de Clara C.", "Campo Sem-fim" é maduro. Mais sutil. Tem uma voz feminina atemporal. Talvez não haja um resgate assim na literatura riograndense, sabes, mãe?
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— Tu achas é? Obrigada.
— Mesmo sendo fragmentado não deixa de ser compacto. E a mulher que narra está tão bem indefinida, que poderia ser qualquer mulher daquela época. Faz "Anaí das Missões" parecer homem.
— Em qual época te pareceu estarem ambientados?
— Bueno, aí é que é. Uma das sutilezas dos minicontos é que eles abarcam um longo passado. Pode estar em qualquer ponto da nossa formação. Quando escreves sobre as crianças e mulheres vagando, deixadas para trás pelos nômades, situas os personagens numa paisagem anterior aos campos demarcados, quando cada estância neste pampa era uma fortaleza. A própria casa de La Rosada é um forte, já notaste?
— Ela é antiga sim, acho que da metade do século XIX.
—Teu livro desperta —faz uso, na verdade— o meu imaginário de infância. Aquele de quando vínhamos para o Posto Branco sem ter a noção de onde terminava a vastidão, como se na estância entrássemos não só num espaço sem outra geografia, mas também sem tempo, sem história. Por isso tem força. É capaz de usar o que está em nós, este cenário comum a todos, sem sequer descrevê-lo. Acho que a tua arte está aí.
A mãe escuta o que lhe digo sobre seu segundo livro, pensativa.
—A gente nunca sabe em que vai dar o que tentamos escrever.
— É, mas quando é nosso, é nosso.
Chegamos aos moirões de pedra do aramado de La Rosada. Abro o cadeado da porteira, ao lado do marco divisório e passamos do Brasil para o Uruguai.
— Logo depois do temporal do carnaval, eu saí na zaininha para recorrer este potreiro. Ainda estava bem armado e se via as cortinas de chuva surgindo e sumindo longe na planície. Era dessas tardes em que o sol atravessa as nuvens e deixa barras de luz sobre o campo enquanto a manga d’água te pega —como me pegou— só para molhar os pelegos.
— Uma tarde de casamento da raposa, como dizia a tua avó.
— Mas o que eu nunca tinha visto depois de um chaparrão era tanta formiga voadora. Eu era obrigado a manter o vento nas costas, tal o enxame que me rodeava, atraído pelo calor do cavalo. Grudavam no pescoço molhado da zaina, na lente dos meus óculos e quando eu apeei para abrir a porteira senti o peso do capuz da capa. Tirei aos punhados as formigas vivas com as asas coladas umas nas outras.
— O calor do sol ou a chuva deve ativar o relógio biológico das formigas. —Diz a mãe.
— E os rasantes das andorinhas sobre nós, fazendo oitos no ar e se banqueteando no formigueiro alado... Alguém da cidade que me visse de longe ia dizer que aquele gaúcho encanta bando de passarinho. Bonito mesmo ficava contra o sol.
—Eu posso imaginar... Não vejo gado neste campo.
— Gustavo está banhando contra o carrapato. Olha lá, a mancha escura à direita do moinho. Ele está trabalhando com as vacas de cria na mangueira das casas.
— Sim.
— É aqui que os alemães vão construir as turbinas eólicas. Mediram o vento de toda a região e escolheram esta zona, não só por ser alta, mas parece que as gargantas dos penhascos tem a ver com a frequência das rajadas.
— Energia limpa. Tomara que comecem logo. Imagina só o gado pastando embaixo daquelas hélices enormes.
— A mim dão a impressão de relógios de vento, girando lentamente.
— Pêndulos, não é?
—Isso, como pêndulos, cada um num tempo próprio. Me pergunto o som que devem fazer. Tomara que sejam silenciosos.
Chegamos na invernada do Moinho Novo. Pequenos louva-a-deus do pasto saltam nas minhas bombachas enquanto abro a porteira. Eram verdes, mas com a seca viraram cor de palha. Agora vão esverdear de novo, pensei, me esforçando para lembrar onde havia lido sobre gafanhotos mimetizados pelas queimadas. Isca de truta, Nick, claro, Nick Adams. A sanga voltou a correr com força, rodopiando nas pedras redondas e fazendo musgo nas margens. Atravessamos sobre o piso que restou da antiga ponte de pedra. Tracionei as quatro rodas para galgar a encosta da coxilha, mais por precaução que pelo risco de atolar no campo macio. Subindo, o céu contra a curva da coxilha ficou ainda mais branco, como uma zona de ar diferente. Uma vez lá em cima, a sede da estância caiada de rosa surgiu ladeada pelo velho umbu, entre os três cinamomos centenários.
— Vendeste as ovelhas, não é?
— Obrigado pela estiagem. Mas com as borregas que ficaram vou fazer um plantel de Corriedale. Estou pensando em inseminar com algum carneiro dos bons. É uma boa forma de recomeçar, assim, em pequeno número, mas de qualidade.
— Dá para trazer algum do Posto Branco, fala com teu irmão. Olha, quantos tahans naquele banhado... E os gansos cinzentos que ficaram aqui quando compramos a estância?
— Nem me fala... O Santosmauro comeu quase todos. E me mentia dizendo que eram caçados pelos zorros. Estes tahans andam sempre em par. Aqui são seis casais. Só vão embora quando o banhado seca.
— Já foi tarde, esse nosso capataz de Paso de los Toros.
—Te contei que ele abandonou mulher e três filhas por essa guria?
—Que guria, meu filho?
— A filha daquele gordo que era o encarregado aqui. Tem doze anos.
— Mas por uma criança...
— Nem tão criança, Santosmauro disse que aos onze ela fugiu de casa com um pastor de igreja de garagem, que tinha um Corcel II amarelo, e só voltou quando ameaçaram prender o padreco.
— Que crime! E por onde anda agora o Santosmauro?
— O Carlitos arrumou uma capatazia para ele em Tacuarembó e no terceiro dia de trabalho ele foi embora da estância porque descobriu que ela ia ao baile sozinha, em Tranqueras, no fim de semana. É bem como o dito: um fio de pentelho puxa mais que uma junta de bois. Deve estar fazendo uns trocos no que ele mais gosta, negociando cavalo redomão para as gineteadas. A estância mudou com o Gustavo. Está tudo muito limpo e organizado. Vamos ver como ele trabalha o banho dos animais.
Revisamos o gado de cria já banhado nas mangueiras e acompanhamos o lote que faltava. A mãe observou o mergulho das vacas no tanque cheio de água tratada com carrapaticida, como nadaram por ele e subiram os degraus até a pequena mangueira circular onde o excesso escorre pelos ralos de volta para o banho. Depois contamos as cabeças, fazendo com que passassem em fila ao correr da cerca. Apartei duas vacas com o olho branco, para operá-las, e três terneiros com bicheira no umbigo, para curá-los com o Bertac que eu trazia. Com a tarde já alta, seguimos ao fim do campo. Passamos pela manada de pôneis mandados por meu irmão para combater os espinhentos cardos e caraguatás que proliferam entre as pedras do platô da Pena. Uma potrilhinha recém nascida, menor que uma ovelha, mamava na mãe de igual pelagem tubiana, marrom e branca. Anotei na caderneta: vermífugo para cavalos, marcar potrilhos, capar machinhos. Pensei em convidar Carlitos Casadei para fazer todo o serviço na próxima minguante, inclusive a operação das vacas cancerosas que ficaram com os terneiros abichados no piquete de azevém.
— Tenho saudade do Carlitos. Vou trazê-lo para apalpar a prenhez das vacas, aproveito e repasso com ele a cavalhada.
— Uma pena teu veterinário ter ficado tão longe.
— Quando acumula o serviço como agora dá para fazer com que ele venha por dois ou três dias. E hoje a casa já dá pra ser habitada. Só falta a luz. Mas com os faroletes a querosene se resolve, enquanto não instalamos as placas solares.
Chegamos na borda do penhasco diante do vale por onde viajamos. A vegetação abaixo é fechada, com palmeiras nascidas nas reentrâncias da pedra vertical dos dois lados das encostas, entre as anacauítas, as aroeiras e as moitas de coronilhas, onde os urubus fazem ninhos.
— Sente a marcela? —pergunto rodeado pelo aroma doce que se despreende do roce das calças nas ervas rasteiras.
— A capa do meu livro vai ser de cartão de marcela... bem perfumada. Olha está toda em flor, entre a chirca. É a época dela.
— Quantos exemplares vais tirar?
— Vai ser todo feito a mão, artesanal mesmo. Não sei ainda, uns 200, 250.
Caminhamos um pouco mais em silêncio, olhando para o chão, eu pensando nas cruzeiras e corais venenosas que se aquecem nestas pedras.
—Lembra dos travesseiros de marcela? —ela indaga— Estou sempre adiando ir conversar com os jujeiros que ficam nos camelôs do Parque Internacional, para aprender sobre as ervas medicinais daqui. Nós não temos nem idéia da riqueza desta vegetação que todo estancieiro considera sujeira do campo.
—Para o estancieiro tudo o que o gado não come é sujeira do campo. Olha aqui, mãe, — indico, dando as costas para o vale e abrindo a macega com a mão. —Olha o trevo nascendo na sombra da carqueja. No inverno ele engorda mais o gado que a pastagem artificial de cornichão e azevém. Este campo é ideal contra o frio, porque a encosta protege do minuano e estas macegas aquecem os terneiros novos. É por isso que não tenho nenhum animal aqui agora. Estou deixando empastar para quando gear.
Voltamos ao jipe estacionado na sombra de um quebracho colorado, única árvore em todo o chapadão do potreiro. As cigarras calaram com a nossa chegada e pude ouvir o zunido dos marimbondos.
— Tem um enxame enorme aí, mãe, cuidado. Espera do outro lado que eu te pego ali.
— Tá. Vou colher um pouco de marcela.
Dei a partida, me afastei da árvore e apaguei o motor. Enquanto esperava, as cigarras recomeçaram com mais força. A estridência acelerou a passagem das nuvens sobre o capô do jipe fazendo com que as milhares partículas de pólem contra o sol parecessem paradas no ar mesmo com a brisa constante. A mãe voltou com um ramalhete de marcela. Rumei ao norte e antes da sede da estância girei para o oeste. Tínhamos ainda hora e meia de claridade. A chapada está entre dois precipícios com córregos rasos que se tornam torrentes quando chove. Em vista aérea, essas gargantas têm a forma de uma forquilha. Voltávamos do Rubio Grande e íamos ao Rubio Chico. Na borda do penhasco sobre o Rubio Chico a parede do morro em frente é mais alta que o horizonte onde o sol caía e, embora seja profunda igual, não é tão íngreme. De modo que é possível descer a pé pela encosta, tomando cuidado com o cascalho solto, até as piscinas naturais de rocha branca que minha mãe queria conhecer. Mato adentro, passamos pelos restos de uma vaca morta há meses que não fôra coreada pelo Santosmauro, e calamos para não contaminar o passeio com o desleixo do capataz demitido. Atravessamos a mesma sanga três vezes, em ziguezague, pisando nas pedras que estavam acima da tona até chegar a um poço profundo, sem lambaris nas margens e sem movimento algum que pudesse fazer pensar em peixes maiores na água verde. O cheiro novo de outro bicho morto vinha da mata do penhasco. Dois urubus planavam em círculos sobre ela. Me aproximei da borda do abismo e vi de cima as asas abertas, o lustre passando pelas costas das aves a cada vez que se inclinavam para o lado do poente. Na margem do poço, marcando a entrada de uma gruta, outro quebracho colorado. A umidade das últimas chuvas escorria em filetes pela parede da gruta, dando à rocha na sombra reflexos da claridade do céu. Essa luz, por sua vez refletia na piscina, como num espelho descascado.
— Já entraste aí? —Ela indaga.
— Já entraste aí? —Ela indaga.
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—Pra entrar nessa cova só a nado. Mas que nome terá esta trepadeira nos galhos do quebracho, mãe?
— Parecem vestidinhos dependurados de cada galho.
— É... olha... se encolhem. Soltam perfume quando são tocadas.
— Parecem vestidinhos dependurados de cada galho.
— É... olha... se encolhem. Soltam perfume quando são tocadas.
Voltamos subindo até um quilometro adiante de onde havíamos estacionado, eu ainda cheirando nos dedos a trepadeira. Chegamos na estância com sede e colhi um limão para espremer na água gelada, servi uma jarra e levei para a mãe. Enquanto eu determinava a lida do resto da semana com o Gustavo na varanda do galpão, tirei as botas e calcei as alpargatas. Dos simples confortos do campo, poucos se comparam à maciez dessa trança de corda para os pés que vêm do duro couro de uma bota de campanha. A mãe fez o mate para a volta. Anoitecia ao deixarmos La Rosada e, como os troncos retos do pinheiral, também o poente tinha algo fake, principalmente nos instantes em que o sol sumira e os vagalumes surgiram quase todos juntos cravejando o alaranjado technicolor de um céu de pôster. Até passarmos Masoller contamos mais de dez lebres ofuscadas pelos faróis acesos. Era noite fechada descendo a Pena. A mãe dormitava e eu senti nos olhos pesados a noite passada em claro. De vez em quando, um vagalume iluminado batia no parabrisa me fazendo pensar que era a sua vida partindo na luz que lentamente se apagava. Como demorava em morrer, espatifado no vidro, sumindo contra o céu estrelado. Pensei nos morcegos, nos ratos e no gado, me dizendo que o correto diante da morte é sentir em toda a vida a extensão da minha própria. Lembrei de uma antiga propaganda da Unesco onde se dizia que nós não possuímos nada, só tomamos emprestado dos nossos filhos. Não lembrava de ter passado com minha mãe uma tarde tão tranquila. Quando cheguei em casa, Gracielita e as crianças já dormiam. Jantei e fiz um pequeno passeio pela calçada com os cachorros. Depois caí na cama. Sonhei que era noite e eu voltava, pela ruta 30, de La Rosada. Estava sozinho, cansado e dormia no volante. No meu sonho, por duas ou três vezes eu adormecia, mas acordava antes da curva e evitava o acidente.
Novembro 22, 2011
Campo Sem-fim
Ir
Celina Hamilton Albornoz
Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua compreensão me confortou. Partimos no silêncio. Mudos pelo campo sem-fim. Agarrado a minha mão, quase um menino, sua confiança não pesa nada perto dos pensamentos que não consigo tirar de mim. Viemos do acampamento dos trabalhadores sem terra. A mãe dele desapareceu depois que a polícia invadiu o barraco de lona, levando o filho mais velho. O pai morrera há pouco. Eu não conheci o meu. Nem sei se minha mãe sabia quem era. Quando encontrei o menino no meio da multidão revoltada, mãos nos ouvidos, grito sem voz, senti minha experiência de volta nas suas pernas franzinas, nos seus olhos esbugalhados. Mas não chorei. Nunca choro. Embora ainda doa o aperto do homem que me desgraçou, furando minha pele com suas unhas. Gargalhando. Depois de me usar, me entregou a uma dona. Passei um tempo vendendo meu corpo, jurando nunca mais me comover. Até o momento em que a mãe do menino sumiu. Lembrei da minha. Ela também desapareceu quando, pela primeira vez, senti os peitos intumescidos, o sangue descer. Minha mãe foi espancada até a morte. Inventei esse fim para ela. A idéia de deserto, também. Não conheço nenhum, sou daqui mesmo, deste descampado verde. Apenas gosto da palavra deserto, do que provoca em mim, para onde me leva. Deve ser mágica, pois bastou ele a ouvir, para querer me acompanhar. Não estou mais só. Vou. Estou indo, é lá. Naquela direção.
Outubro 26, 2011
Sobre Getúlio Neves, poeta.
Em um comovente elogio à memória do seu amigo, o poeta alegretense Laci Osório, meu pai conta que começou a escrever poesia por ter sido desafiado. Conhecera Laci declamando O Trigo – uma das suas mais belas poesias – no Instituto de Radiologia do Dr. Hugolino Andrade, na década de 70. A sala do Dr. Hugo, nesse tempo, era uma espécie de oficina freqüentada à diário por seus amigos daqui e pelos que estavam de passagem na cidade para discutir política, atualizar fofocas locais e, eventualmente, medicina. Laci, notando o interesse demonstrado por meu pai, ficou de passar pelo seu consultório, o que fez naquela mesma tarde. Ele vendia, na ocasião, enciclopédias, dicionários, publicações de arte e obras literárias. Mostrou também alguns poemas em gravuras e livros da sua autoria, modestamente e sem maiores comentários. Começava assim uma relação que teria um papel relevante na vida do meu pai. O médico da província e o poeta comunista foram amigos até a morte deste, ocorrida mais de 30 anos depois.
Em uma das visitas ao consultório, Laci mostrou alguns novos poemas e, diante da reação reticente, perguntou se o amigo não tinha gostado. Este, com franqueza, lhe responde que talvez fizesse melhor. – Pois faça, respondeu Laci. Faça doutor e que na próxima vez o Sr. também tenha versos para mostrar.
Eu já conhecia a estória, mas ao ouvi-la em público, no elogio, ocorreu-me que meu pai, como algumas pessoas que conheci, sempre fôra poeta, apenas não escrevia poemas. Sim, mesmo antes de formar-se em medicina, eu me disse, meu pai já era um poeta. O que sua sensibilidade, polida pela leitura e amadurecida pela vivência, aguardava era um detonador que rompesse o silêncio de mais de duas décadas, se contarmos de quando o estudo universitário calou o sonetista adolescente aluno de Celso Luft e discípulo de Antero de Quintal. Em Laci, 18 anos mais velho e artista de ofício, meu pai encontrou um mestre, não – claro está – para a sua poesia, mas um mestre da própria poesia. Como ele mesmo diz:
Durante as longas discussões sobre os nossos poemas, insistia em que devíamos ser simples, claros, concisos, mas não tão simples que só nos ocupássemos das coisas simples, não tão claros que o brilho nos ofuscasse, nem tão concisos que chegássemos ao hermetismo. Na poesia – dizia o Laci – a inspiração deve ser sujeita à síntese.
Mais tarde, já nas conversas que mantínhamos sobre poesia era meu pai quem defendia o ritmo, a harmonia, o começo, o meio e o fim do poema. – Não manda ninguém ao dicionário, Thomaz. Escreve para que todos entendam. Ao que eu lhe respondia, com a imodéstia da juventude, que escreve-se para ser lido antes por si mesmo e depois pelos outros poetas, para fazer respirar a língua, etc... Ou seja, apesar das preferências pessoais e das diferenças entre os autores de versos, a poesia os une e os torna cúmplices na paixão pela palavra. Ao meu ver Laci Osório foi, por exemplo, uma vítima da sua estética engajada. Digo vítima porque a convicção política impregnou seu lirismo quase ao ponto de sacrificá-lo. Não fosse o poeta que foi e teria sucumbido junto com os poemas políticos que escreveu. Getúlio soube filtrar a ideologia do amigo e nutrir-se da energia pura gerada nele pela linguagem. Há contextos em que a presença de um verdadeiro criador é capaz de inspirar tanto ou mais que seu poema.
Poetas
Pequenos ou grandes
os poetas nascem juntos
e vivem tão distantes!
Têm o sentido da sombra comum
que fazem sobre o cipoal em luta
e os seus versos
graves ou lúdicos
jazem como folhas
no poema do solo.
Durante os 15 anos seguintes meu pai escreveu os poemas que reuniria sob a capa de A Ira do silêncio, publicados por esta mesma casa editorial, em 1986. Conta então 56 anos. Poeta pronto, transita com igual domínio e naturalidade pelo verso fixo e pelo verso livre. “Águas Siladas”, de 1992, confirma o primeiro livro e o continua, animado pelo mesmo estado de espírito maduro, pleno e horizontal. Há quem pense que a vida de um poeta na província é solitária. Mas não necessariamente. Homem aberto, Getúlio cultiva seus pares. E o faz com a constância das cartas, dos encontros ao redor da boa mesa, dos longos telefonemas. Além do Laci, nesses primeiros anos, estreitos laços o unem ao companheiro de juventude, o poeta de São Sepé Afif Simões Filho, ao poeta de Santa Maria Armindo Trevisan, ao seu editor e também poeta Carlos Jorge Appel e ao poeta Antonio Carlos Osório, radicado em Brasília. Para citar apenas os de fora de Sant’Ana. Precisamos mesmo, para afirmarmo-nos, não mais que meia-dúzia de leitores sinceros, que leiam nossos versos com o mesmo vagar com que foram escritos e nos digam usando dureza e carinho o que pensam sobre eles. Durante o seu período de afirmação, nestes poetas meu pai teve os dele.
Há pelo menos cinco vertentes formais recorrentes nas duas primeiras coleções de poesia e elas refletem suas explorações estilísticas. São evidências de quem procura estabelecer zonas de conforto dentro do alcance da própria voz. Tercetos de Ruínas de São Miguel - 1984:
(...)
VI
Céu antigo pendendo dos beirais,
a recortar abóbadas azuis
indiferente ao coro dos pardais.
Depus o sal nas bordas do meu verso
sandalias descalcei para adentrar-te
penumbra que já foi um Universo.
O pó da história levo nas retinas
e a sensação também de fazer parte,
de que modo não sei, destas ruínas.
Vão quatro quadras – tão diversas entre si –. A primeira remonta ao Ibiquí em que foi criado
*
Entardecer de iguapés.
Eram sargaços em chamas?
Eram cores sem raízes
que o rio no lago derrama.
esta, singela, com as mãos da sua mãe Lira:
*
Percorro as ruas antigas
com infinito cuidado
de mãos que alisam, amigas
gastos e lindos bordados.
e o poeta e o médico que juntos dizem:
*
Agradeça a anarquia
que te faz a gurizada
fome não tem alegria
febre não dá risada.
ou ainda
*
Lembrança do teu amor
carrego sempre comigo
ferrugem de ouro velho
deixado em veludo antigo.
Sonetos. Destes existam talvez mais inéditos que publicados. É na medida do soneto que, durante uma longa fase criativa, seu pensamento, emoção e inspiração melhor se equilibraram. O par que segue não viu prelo.
Dia de chuva
É muito bom a gente ler Quintana
quando as goteiras pingam nos beirais
e a gente pensa que aqui em Sant’Ana
esta chuvinha não acaba mais.
Acendo o fogo na minha cabana
junto aos amigos tempos invernais
fazendo votos que toda a semana
os dias permaneçam sempre iguais.
Que se aborreçam outros, não importa!
Eu amo a chuva e as gordas suadas
Eu amo as vesgas e a madeira torta
Eu amo os dias neblinando assim
comendo este mingau às colheiradas
e tu Clarisse agarradinha em mim.
A forja
Esta é minha forja, aqui mourejo
na rubra boca deste estranho forno
de onde retiro o bloco informe e vejo
a vida palpitando no meu torno.
Confesso, às vezes, sem o menor pejo
não ser possível dar um tal contorno
que eu gostaria e que o meu traquejo
sabe melhor para qualquer adorno.
Mas, não desisto, obstinado, em frente
sigo, na busca tensa, emocionante,
contínua e renovada dos meus temas.
E,se tropeço, as pedras calmamente
recolho, e as vou polindo no constante
roçar nos versos soltos dos poemas.
Bem, publicados estão agora. Imagino que Dia de chuva tenha sido rejeitado pela modesta singeleza e A forja pelo descarrilhar de enjambements que o fazem claudicar um pouco na descida. Mas talvez seja justamente por isso que os recordo tanto. Pela sua imperfeição terminada... Esta é minha forja, aqui mourejo e Eu amo a chuva e as gordas suadas / eu amo as vesgas e a madeira torta são versos que me acompanham desde que o pai os leu para mim pela primeira vez, no final dos anos 70. Ao folhear seus livros, é sempre sobre um soneto que detenho o olhar primeiro. Entretanto, exceptuando as quadras, a maior parte de sua obra até o momento é composta de poemas brancos. Poemas mais ou menos discursivos cujo cenário dominante habita antes no interior do autor para, desde lá, invadir a realidade.
En pasant
Tamborila a chuva amplificando a minha insônia
A imaginação nebuliza os objetos
apalpando-lhes os seus contornos cegos
penetrando em seus esconderijos
Constato a presença dos adversários mudos e atentos;
cautelosamente
analiso as sombras na madrugada
e faço um movimento de avanço.
De imediato, fogos sinalizam e
um guerreiro destaca-se, fazendo perigosas
evoluções de luta.
Comtemplo-o firmemente e lhe declaro
o quanto é insensata a sua atitude – ele, então,
parece aquietar-se
mas não depõe armas, como é de uso nestas circunstâncias.
E assim ficamos por longo tempo;
por fim, as barras do dia o enclausuram junto com um bispo.
Bem sei que a noite o libertará
por alguns dobrões de cizânia. Estou, porém,
prevenido e aproveito a luz para
esculpir os brasões nos meus tabuleiros, tão
necessários.
O leve absurdo de
O Sorriso de Deus
Eu tinha uma rosa
chamada “Sorriso de Deus”.
Era tão bonita que um guri
destes barrigudinhos, a comeu
pensando que era um doce.
Aí Deus sorriu desdentado
e pediu outra.
Se levarmos em conta os poemas citados e considerarmos que são pinçados ao acaso da minha memória afetiva desta obra em processo, podemos dar por sentado seu ecletismo de forma e de conteúdo. É também evidente que ele não premedita o poema. Ao contrário, permite que o impulso poético dirija o verso ao terceto, à quadra ou o desestrofize, derretendo-se à partir da linha seguinte. Apesar do repertório de estilos, sua voz não muda. Essa espontaneidade de timbre, caráter do que é genuíno, é uma das marcas da sua escrita. Cedo percebe que poetizar o poema, como diz João Cabral, o artificializa. Dosa a beleza com punhados de verdade. Não o inverso. Meu pai é um exímio diluidor de influências. Difícil determinar em quem apoiou-se e quando. Autodidata, sei das suas preferências literárias por freqüentar a mesma biblioteca e pelos livros que dela me sugeriu ler. É raro encontrar a sombra de outros poetas nas águas dos seus versos. Não à mergulho de apnéia. Como leitor, sei da sua admiração por Whitman e Pessoa. Que bebeu em Camões e Bocage. Conhece toda a poesia moderna. De Dario a Vallejo, de Huidobro a Cernuda, dos surrealistas aos beatnicks, de Ungaretti a Montale. Mas é com Antero e Cruz e Souza, ou Manuel, Cecília e Quintana que sente-se a gosto. Viveria perfeitamente sem Drummond, Murilo, Cabral ou Gullar na prateleira. Despreza a política do meio e nunca teve – que eu saiba – projeto literário algum além de escrever o próximo verso.
Há, nesses dois primeiros livros, poemas que aspiram ainda ao círculo fechado, a completude. Em “Itaipu”, “A gota”, “A moeda”, “As ruínas de São Miguel” o poeta busca pela totalidade, e através dela, enfrentar a desintegração. Ele tenta, através da poesia, desacelerar a percepção de um mundo que constantemente fragmenta-se à sua volta. Nesta luta é de um moderno hoje antigo.
Onde o azul não chega
Túmido e completo
aguardo nos grãos de areia
a túnica do esquecimento.
Concha, abro-me ao passo silencioso das algas
Neste mundo sem luz a ferrugem
estampa cor de cereja fresca
difícil de encontrar propósito.
Imune a estas provocações
incorporo-me à coreografia
dos sedimentos.
Sou-me e basto.
Sobre a reunião Quadras e quadros, de 1998, foi escrito que não por ser a mais simples seria menos ambiciosa. Junto a contenção formal das Quadras, os prosapoemas de Quadros reduzem o discurso e alcançam um despojamento poético quase absoluto. Se nas quadras os temas caros ao poeta se oralizam ao ritmo da trova, nos quadros, as reflexões parecem estar na página como no pensamento quando a idéia se detém. Nos dois casos tem-se a impressão de composições em trânsito, o diário de um contemplativo. Apesar do formato, o tom registra a mesma ternura entrelinear e a mesma comoção resignada que o caracteriza.
Ser uma estrada antiga a entrar nas vilas
e desmanchar-se em ruas calmas e tranqüilas
Este lirismo minimal rege seu canto, sempre dolce e mesto. Ao Lotar, seu mascote, escreveu este
Cão, no domigo
O carinho se enrosca no pêlo
crespo – rosa na trama da cerca viva.
As patas são gastas
e limpas
lembrando pardais com quem repartem
o condomínio das ruas.
Sacristão desta praça
vem de banco em banco recolhendo
seu dízimo de amor.
Sinto nas mãos a lambida áspera e
lhe invejo os olhos
que não sabem guardar
os recados da vida.
Abana a cauda pausadamente e sem pedir
recibo vai embora.
Muitas vezes o leitor sente que nas quadrinhas o poeta brinca com barro.
*
Velha gorda igual a esta
confesso que nunca vi
é corpo para duas almas
é mesmo um plural de si
*
Eu juro que já tentamos,
senhora, de todo o jeito
agora só continuamos
se lhe faltar com o respeito.
Por outro lado, e guardando as devidas proporções, não é difícil detectar na quadra um nobre parentesco com o haikai.
*
O teu vulto entre neblinas
vai ficando no passado
poeira de areia fina
sobre o cristal machucado
Traduza em ideogramas... passado / poeira sobre cristal / vulto neblina...
Parece, a quem compara o pequeno livreto com os trabalhos anteriores, que na artesania da quadra o poeta busca popularizar-se. Há nessa impessoalidade autoral, nessa neutralidade estilística, um exercício despretensioso que resiste à ambivalência de uma ambição maior: ter na boca do povo um verso que ganha a rua e se torne anônimo.
Concomitantemente à feitura de Quadras e quadros e obedecendo ao mesmo impulso de abertura finaliza a composição das músicas de poemas, até então inéditos, como Planta Filho, Vem, Sant’Ana, Antoninha, entre outros, e os grava no cd Anéis do Tempo, de 1999. Não fosse por O tapa furado, Histórias e contos médicos, de 2006, a primeira década do século teria sido a de um longo silêncio. O foi, se julgarmos apenas pela poesia.
Resteva, além de ser o que sobra da colheita, nos diz que é a terra – o homem – e não apenas o cultivo – sua criação – o importante para o poeta. Ou, em outras palavras, neste livro mais que em qualquer outro, o autor e seu contexto estão no centro da criação. O amor, o pampa, a cidade e suas praças, a meiga observação da natureza e dos tipos fronteiriços alternam-se com um humor às vezes corrosivo e não isento de amargura. Há menos circunstância em Resteva e mais reflexão. A dicção dos poemas discursivos é coloquial, mas definitória. No lugar de seduzir, filosofa. Nisto, aquele estado de espírito da sua estréia, pleno e maduro, se verticaliza. Aqui ele inventaria suas verdades, pondera incertezas e põe em perspectiva os valores da sua formação.
Acreditar
Para quem não acredita no amor,
todo sofrimento é definitivo.
A esperança adia o fracasso
e este é o prelúdio da decadência.
Para quem não acredita no amor,
triunfa sempre o universal sobre o particular,
os homens são a causa da solidão,
e esta, a contingência exasperante do nada.
Para quem não crê no amor,
a dúvida de si próprio
é a suspeita sobre o gênero humano,
a falência das suas certezas.
Quem não acredita no amor
necessita um credo de instintos
e a disposição de servi-lo.
Entretanto, em meio as considerações inevitáveis, ainda permite que o leitor volte a respirar o lúdico universo de A Ira do Silêncio e Águas siladas. Está o celebrado Palomas – cuja primeira versão talvez tenha sido sua estréia impressa – publicado na revista bilíngüe, O gato viúvo, em 1984. Este poema resgata algo da sua solitária partida de trem da estação Palomas, onde chegara a cavalo com seu pai Dorval vindo da estância do Ibiquí, a três léguas de distância. Ía ao primeiro ano escolar no internato do Colégio Santanense, em Livramento. O mesmo colégio celebrado por ele em um poema, a pedido dos irmãos maristas, no aniversário de oitenta anos da sua fundação, também dado a ver neste Resteva.
Palomas
Velha estação corcunda e parda
corroída de cupim, castigada de inverno.
Emerges da folhagem aspergida
de silêncio. Na tua plataforma
só transita a quebra-pedra
extraviada pelas fendas.
À esquerda, pelo túnel de amoreiras
um menino certa manhã partiu
levando nos olhos e no coração
o susto de abelhas perdidas na cidade.
Depois, rodas fumarentas esmagaram as folhas
dos plátanos no caminho.
Através da chuva gelada ouço,
agora, o sino a bater no alpendre.
Um trem vazio chega e se vai.
Interrogo a estrada, mas dormentes
molhados não guardam rastros de menino.
Palomas é uma saudade sobre trilhos.
E a série de sonetos campeiros, entre os quais Um dia a mais apreende um momento na vida do carreteiro onde nada extraordinário acontece, só a poesia.
Um dia a mais
Dois agudos de cheda seresteira
tira a carreta dos sulcos na estrada.
Apeia-se o gaúcho na poeira,
um dia chega ao fim na carreteada.
Desajojando os bois pela dianteira,
a última junta solta-se cansada.
E a douradilha, de passarinheira,
aponta orelha para os rumos da aguada.
Um piazito sai a catar lenha.
Longe a primeira estrela se desenha.
A cobra chama o sapo em silvo falso.
O guasca mexe-mexe nos embrulhos.
A lagartixa espalha pedregulhos
e o cusco erguendo a perna mija o salso
Faceta não mencionada, meu pai passeia. É um caminhador. Muitos dos seus poemas foram escritos e revisados durante suas longas excursões pelos campos dos arredores e pelas ruas da cidade. Algumas leituras, às vezes, levam-nos a imaginar certos versos formando-se ao ritmo dos passos, absorvendo a paisagem em torno até dar com seus esboços. O pensamento a poetizar-se.
Vida
Podes andar por sendas não trilhadas
e compartir com outros olhos
as transparências dos amarelos remotos
de reinos desconhecidos,
única fortuna dos que caminham.
Podes conhecer a geografia de todos
os povoados, a biografia de seus
paroquianos. Mas se não estiveres
em condições de sentir
a vocação da montanha para a majestade,
a arrogância das cores desafiando as chuvas,
o desvelo do limo decorando o leito dos rios,
a existência do amor nas casas fechadas,
a conspiração de ternura entre os perdedores,
o perdão:
muito acima do que és capaz de perdoar.
Terão sido vãos o vagar de andarilho
e o arrastar das tuas sandálias.
Em Resteva, Getúlio Neves encerra uma trilogia com A Ira do silêncio e Águas Siladas. Nestes volumes, futuramente lidos em um só, estabelece-se como um criador personalíssimo, de voz própria e universo definido. Como se insere na poesia riograndense e brasileira contemporânea é algo que a leitura crítica dirá quando atente aos artesões de ofício, onde grande parte da nossa identidade cultural respira. Este é um poeta existencial, às vezes árduo, às vezes cáustico, mas sempre terno. Seu remo é de folhas. E eu ainda espero pelo Livro de Sonetos.
Thomaz Albornoz Neves
Punta del Este, março 2011
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