Pular para o conteúdo principal

Campo Sem-fim



                                                 Celina Hamilton Albornoz


Ir

Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua compreensão me confortou. Partimos no silêncio. Mudos pelo campo sem-fim. Agarrado a minha mão, quase um menino, sua confiança não pesa nada perto dos pensamentos que não consigo tirar de mim. Viemos do acampamento dos trabalhadores sem terra. A mãe dele desapareceu depois que a polícia invadiu o barraco de lona, levando o filho mais velho. O pai morrera há pouco. Eu não conheci o meu. Nem sei se minha mãe sabia quem era. Quando encontrei o menino no meio da multidão revoltada, mãos nos ouvidos, grito sem voz, senti minha experiência de volta nas suas pernas franzinas, nos seus olhos esbugalhados. Mas não chorei. Nunca choro. Embora ainda doa o aperto do homem que me desgraçou, furando minha pele com suas unhas. Gargalhando. Depois de me usar, me entregou a uma dona. Passei um tempo vendendo meu corpo, jurando nunca mais me comover. Até o momento em que a mãe do menino sumiu. Lembrei da minha. Ela também desapareceu quando, pela primeira vez, senti os peitos intumescidos, o sangue descer. Minha mãe foi espancada até a morte. Inventei esse fim para ela. A idéia de deserto, também. Não conheço nenhum, sou daqui mesmo, deste descampado verde. Apenas gosto da palavra deserto, do que provoca em mim, para onde me leva. Deve ser mágica, pois bastou ele a ouvir, para querer me acompanhar. Não estou mais só. Vou. Estou indo, é lá. Naquela direção.
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mar Becker

  De Mar Becker sei que nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e que é gêmea de Marieli Becker. Sua mãe, Meiri, costurava em casa e sua avó, Maria Manoela, foi vítima de uma tragédia não revelada às netas crianças. Que estudou filosofia e hoje mora em São Paulo, na reserva de Guarapiranga, com Domênico, seu marido. Sei que é leitora voraz, que tem bom gosto poético e que é culta, que gosta de cavalos, cães, gatos, Zitarrosa, de música nativista e de Glen Gould. Que toca violão e canta, gauchinha, com voz meiga, quase infantil. Sei outras coisas que, como estas, importam pouco, são letra fria diante do que ela escreve e da forma como escreve os poemas de "A mulher submersa", seu livro de estreia publicado pela editora Urutau.  A primeira impressão de leitura é de que esses poemas foram impelidos por instinto de urgente sobrevivência. Apesar da urgência, há neles lenta maturação e extremo refinamento. A leitura nos deixa quietos, maravilhados muitas vezes, enternecidos e ...

Outra leitura de "Oriente", por Paulo Franchetti

Passei os últimos dias navegando erraticamente pelo volume "Oriente", de Thomaz Albornoz Neves. São 771 páginas, encadernadas em capa dura, em edição rigorosamente do autor. Quero dizer: o trabalho de seleção dos textos, a tradução, as anotações, a chancela editorial, o projeto gráfico e a diagramação, tudo.  Não vou longe nestes comentários. Esse mar de poesia é amplo, a gente tem de passar entre Cila e Caríbdis várias vezes, tem de interpretar, sem ouvir, as reações desse Ulisses ao contínuo canto das sereias orientais e, por fim, não poucas vezes, na companhia imaginária dos leitores presentes e futuros, regalar-se no banquete, nos termos em que Carlos Alberto Nunes traduziu o momento da confraternização sagrada: “todos as mãos estendiam tentando alcançar as viandas”. Não li de enfiada, confesso. Um livro como esse é um companheiro de muitos anos. A gente mergulha, sai, respira, sente saudade e volta para nova imersão, exercício ou banho rápido. Outras vezes apenas para bu...

Orelha de "Oriente", por José Francisco Botelho

    A grande poesia é aquela que se mostra capaz de nos arrancar de nós mesmos, enquanto, simultaneamente, nos entranha naquilo que somos. Na vertiginosa proximidade ou na inconcebível distância —distância de mares, de terras, de séculos, de almas — esse paradoxo se revela de forma mais nítida. Por isso, a poesia do mundo é a senhora do tempo. Vejam bem: não digo que ela seja atemporal; ela existe no tempo, porém o cavalga, ou o navega, ou transita por ele, a jusante e a montante, como as ondinas da fábula. E é por isso que um grande poema escrito há três mil anos pode chegar até nós com a sinuosidade do instante presente, com o mistério das sensações e dos silêncios do corpo. Mas, para que surja a fagulha na transição de uma língua a outra, é necessário que o poema real seja traduzido por um real poeta. É então que a mágica acontece: de artífice a artífice, de criação a criação, o jogo de tempo e poesia se reacende e, nesse movimento, nos reconhecemos no longínquo e nos ree...