Pular para o conteúdo principal

A judia russa de Lavínio Mare, Ardea, 1989


Moro de favor faz alguns meses numa das tantas casas de praia prensadas entre a Via Ardeatina e o Mediterrâneo. Cheguei no começo do outono e devo partir antes do próximo verão. A Signora Vittoria é grata por ter alguém aqui durante os meses em que o balneário fica deserto. Ainda espero sua visita. Depois de ter vivido tanto tempo ilegal, a matrícula no curso de cinema abriu meu visto por mais dois anos. Três dias por semana tomo o primeiro ônibus matinal, percorro 40 kms pela Litorânea até a ferrovia de Ostia e retorno de Roma no último trem, justo a tempo de fazer a baldeação da meia-noite para a praia. Não pago a escola enquanto participar da organização do acervo filmográfico. Mas escapo sempre que posso e passo o fim das tardes na Biblioteca Nazionale fotocopiando por pouco mais de nada todo livro de versos que cai na minha mão. A comida e o transporte me custam menos de cem dólares por semana, o que garante até o verão sem ter que trabalhar. Não tenho expectativa alguma além de o presente passar tão devagar que o verão romano não chegue nunca. Este início de inverno tem uma lentidão própria, nova para mim. Apesar de cada dia ser mais curto, a jornada parece dilatada pelo meu recolhimento. Tenho a impressão que não falar com ninguém converge para a escrita a força das palavras. Já não evito pensar em italiano para tornar o português um idioma mental exclusivo da poesia. Tomo um café cedo e trabalho até a meia-tarde sem que meu foco seja vazado pela vida prática. Quebro o jejum aquecendo no forno pão dormido com manteiga ou azeite de oliva e saio para correr com Paco. Quando o mar está calmo, Paco se anima na faixa de areia molhada, cheira a onda sem espuma se ela vem e a persegue se ela volta. O mediterrâneo é um beco gris de céu baixo que me provoca um pesar recorrente. Toda vez que desço ao Lido de Lavinio, a memória do pampa e da vastidão do Atlântico condenam a farsa deste exílio, sua ilusão de só poder encontrar o que procuro longe do que conheço. Ao voltar pela avenida com a cachorrinha solta ao meu lado, me sinto o único morador de toda Ardea. Eu e um velho de costas para o mar apoiado em uma muleta. Paco corre em sua direção, ele a toma nas mãos e se apóia no muro de contenção da beira-mar. Brinca de escondê-la deixando sua cabeça aparecer entre os botões do sobretudo. - Parushski, me pergunta, devolvendo a cachorrinha ao chão. Ao que eu – Niet, niet. Parlo italiano. – Da, diz ele. Fima, e aponta o polegar ao próprio peito. - Thomaz, respondo, divertido por encontrar um russo para conversar depois de três dias sem ter com quem falar. - Ah, tomaích, yá. - E... apontando para a cadelinha, - Paco, lei si chiama Paco. Ele me diz algo que não compreendo sobre a torre em ruínas do promontório. Tor Caldara, respondo, mas não nos entendemos. Para puxar assunto menciono a queda, anteontem, do muro de Berlim. Ao que ele: - Gorbachov! Cospe no chão esmagando com o pé vivo até deixar nada do cuspe, nem para a Paco cheirar. Mostra a estrela de Davi na corrente do pescoço, como se fosse notório o anti-semitismo do presidente. Fico sem saber o que dizer, mas ele impede que eu me despeça apontando com simpatia o dedo para a minha orelha. Eu atento. Seu assovio claro e afinado melodia Nessun dorma. Na medida em que alcança o crescendo de ma il mio mistero é chiuso in me minha atenção se torna reverência. Então conto de mim e do que faço, para o seu desgosto. Fima se esforça para me fazer entender que jovem algum deveria viver sozinho num balneário vazio e aponta para a Paco fazendo careta como se eu merecesse companhia mais, digamos, humana. Para ilustrar, retira do passaporte fotografias soltas da mulher morta no Mar de Azov e me mostra o carimbo que demonstra estar em uma quarentena alfandegária para emigrar ao Brooklyn, onde alguns dos parentes das fotos, também expurgados, o esperam. O vento do entardecer nos faz deixar Tor Caldara para trás, na direção da Piazza Lavinia. Sobre o silêncio do meu andar ouço o passo da perna de pau e o taco sem borracha da muleta. Fima me coloca no devido lugar na escala dos exilados. A casa em que chegamos está duas quadras antes da minha e foi alugada pela embaixada. Faz um gesto para que eu deixe Paco na varanda e me convida para entrar. Sua neta, Olga, está cozinhando. Olga é a mulher mais branca que já vi na vida. Dura, de giz. Mais tarde, quando lhe toco a pele escamosa, me vem a palavra "ofídia". Mas seu incisivo todo dourado quebra essa aspereza com um clarão na irrealidade de cada beijo. Irrealidade do meu olhar sobre minha própria vida que aquele dente de ouro assombra. Quando faço seu retrato, é a secura da sua pele na minha solidão que eu tento pintar.


A judia russa de Lavínio Mare, Ardea, guache em cartolina, 1989.





Comentários

Eliane Marques disse…
Thomaz:

Quanto beleza nesse texto!

Para o próximo PORTO, também esperamos tua poesia.

Um abraço,

Eliane
Unknown disse…
Thomaz leio sua prosa como numa agradável conversa, como tantas que tivemos. As imagens e a poesia alinhavada pela curiosidade do olhar sobre o mundo esmiuçado na caminhada com um cachorro a beira mar. Você nunca concedeu muito à prosa! e esse seu fluxo refaz e inaugura na memória um outro lugar da experiência. Bom ler esse seu texto no meu café da manhã, aqui onde moro agora, na serra. Não sei se você lerá esse comentário - message in the bottle -, mas nele existe algo de celebração de uma amizade distante. forte abraço. Fábio Ferreira

Postagens mais visitadas deste blog

Mar Becker

  De Mar Becker sei que nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e que é gêmea de Marieli Becker. Sua mãe, Meiri, costurava em casa e sua avó, Maria Manoela, foi vítima de uma tragédia não revelada às netas crianças. Que estudou filosofia e hoje mora em São Paulo, na reserva de Guarapiranga, com Domênico, seu marido. Sei que é leitora voraz, que tem bom gosto poético e que é culta, que gosta de cavalos, cães, gatos, Zitarrosa, de música nativista e de Glen Gould. Que toca violão e canta, gauchinha, com voz meiga, quase infantil. Sei outras coisas que, como estas, importam pouco, são letra fria diante do que ela escreve e da forma como escreve os poemas de "A mulher submersa", seu livro de estreia publicado pela editora Urutau.  A primeira impressão de leitura é de que esses poemas foram impelidos por instinto de urgente sobrevivência. Apesar da urgência, há neles lenta maturação e extremo refinamento. A leitura nos deixa quietos, maravilhados muitas vezes, enternecidos e ...

Outra leitura de "Oriente", por Paulo Franchetti

Passei os últimos dias navegando erraticamente pelo volume "Oriente", de Thomaz Albornoz Neves. São 771 páginas, encadernadas em capa dura, em edição rigorosamente do autor. Quero dizer: o trabalho de seleção dos textos, a tradução, as anotações, a chancela editorial, o projeto gráfico e a diagramação, tudo.  Não vou longe nestes comentários. Esse mar de poesia é amplo, a gente tem de passar entre Cila e Caríbdis várias vezes, tem de interpretar, sem ouvir, as reações desse Ulisses ao contínuo canto das sereias orientais e, por fim, não poucas vezes, na companhia imaginária dos leitores presentes e futuros, regalar-se no banquete, nos termos em que Carlos Alberto Nunes traduziu o momento da confraternização sagrada: “todos as mãos estendiam tentando alcançar as viandas”. Não li de enfiada, confesso. Um livro como esse é um companheiro de muitos anos. A gente mergulha, sai, respira, sente saudade e volta para nova imersão, exercício ou banho rápido. Outras vezes apenas para bu...

Orelha de "Oriente", por José Francisco Botelho

    A grande poesia é aquela que se mostra capaz de nos arrancar de nós mesmos, enquanto, simultaneamente, nos entranha naquilo que somos. Na vertiginosa proximidade ou na inconcebível distância —distância de mares, de terras, de séculos, de almas — esse paradoxo se revela de forma mais nítida. Por isso, a poesia do mundo é a senhora do tempo. Vejam bem: não digo que ela seja atemporal; ela existe no tempo, porém o cavalga, ou o navega, ou transita por ele, a jusante e a montante, como as ondinas da fábula. E é por isso que um grande poema escrito há três mil anos pode chegar até nós com a sinuosidade do instante presente, com o mistério das sensações e dos silêncios do corpo. Mas, para que surja a fagulha na transição de uma língua a outra, é necessário que o poema real seja traduzido por um real poeta. É então que a mágica acontece: de artífice a artífice, de criação a criação, o jogo de tempo e poesia se reacende e, nesse movimento, nos reconhecemos no longínquo e nos ree...