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Golfe e inclusão social

O campo de golfe do Clube Campestre de Livramento está na margem do baixo São Paulo, bairro proletário há já algumas décadas esvaziado pelo fechamento da indústria frigorífica que lhe deu origem. O marasmo das ruas de terra batida do bairro continua no silêncio da cancha. Não há, como em muitos campos de golfe urbanos, aquela bolha florestal rodeada pelos ruídos do tráfego. Aqui, afora uma serra elétrica do lado de lá do arroio da Carolina ou o microfone de um pastor evangélico de garagem, a atmosfera não muda muito. Uma bicicleta, o cavalo da carroça, as motos de baixa cilindrada. E bota canto de galo e latido da cachorrada. A mão de obra remanescente espera que algo aconteça, a zona franca, quem sabe. Ou que a indústria volte. O mais jovem anseia a idade do quartel para depois de servir ir trabalhar na serra ou na capital. Há pencas de crianças que estudam meio turno e de adolescentes do curso da noite vagando sem muito o que fazer além da pelada na pracinh...

Carta aberta a um jovem campeão de golfe

Ontem venceste um dos Abertos do circuito gaúcho contra o melhor golfista da história do campo. (Camelo fora. O Camelo é hors concours.) E eu te escrevo esta carta porque não tenho certeza se valorizas o tamanho do teu feito. Não sei se tens a perspectiva para medir o quanto alcançaste desde que saíste do bairro. E, o mais importante, o quanto ainda tens pela frente. É um feito fazer jogo com o Glauco. Sei que já jogaste com um número suficiente de bons golfistas para avaliar a qualidade do cara que bateste ontem com um birdie de cinco passos pateado seco na borda de dentro do primeiro buraco do desempate. Falo da capacidade inata de repetição do contato que o Glauco tem. Do mesmo contato no drive, no ferro e no putt. Esse ponto doce solto e cheio que as suas mãos dão ao impacto. Solto e cheio, repara nisso. O swing do Glauco é todo elástico, fluido e sensível. Perto dele o teu swing parece um robô enferrujado. Sim, o teu swing é a parte defeituosa do teu golfe. O teu sw...

O Touro Cego

Pela aguada, o touro cego costeia a cerca de pedra De onde a cerca desmorona o vale é estelar, sem céu A curva do arroio repele o véu do orvalho caindo E um frescor de água doce coleia os ésses do ar O pasto se afasta em onda Em espirais os ciprestes

San Giorgio, Sicília

              Recordo que o aroma de basílico repelia a maresia e pairava sobre um mar plano de prata Do vinho negro em garrafas de três litros e azeitonas verdes carocentas Dos seixos lisos e redondos na praia sem areia   Da falta que fazia um embarcadouro na enseada   Eu mergulhava para enganchar a âncora de cada veleiro vindo de Stromboli em argolas chumbadas no fundo do mar   Fui chamado   Marocchino, pelo moreno do sol e, dito por Dom Turi, no dia em que nos conhecemos istu caruso ave a etati du tempu vecchiu   Sicília de mulheres quietas, veludas e maduras regidas pelo zodíaco e pelo suor amargo Um zodíaco que girava mais perto da montanha que do céu   Sicília enternecia por mim meu olhar em cada coisa

DO TRÍPLICE TRATADO SOBRE A ESPADA

YAGYU TAJIMA      1571 – 1646                                                           FRAGMENTOS A mente imóvel é o vazio que flui e realiza o mistério O vazio é a ausência na mente E a mente ausente a maravilha Abandona o pensamento como se não o abandonaras Adestra tua técnica. Observa como se não a observasses Se reages antes que tua mente estarás à frente da destreza E que a imagem da mente seja o vazio próprio do espelho Se olhas com o vazio primeiro serás reflexo do que olhas Só depois foca teus olhos um palmo antes do corpo Se avanço sem movimento ajo, mas não movo  Ser como a lua nas ondas sempre feita e desfeita Ou de madeira, um boneco,...

DOS DOCUMENTOS ANÔNIMOS E SECRETOS DA ESCOLA DE ESGRIMA SHINKAGE–RYU

                                          I No espírito livre de pensamentos e emoções nem mesmo o tigre tem onde cravar suas garras             II Se é a mesma brisa que passa através dos pinheiros dos carvalhos e da montanha Porque em cada um o som é outro? III Há quem pense que o ato de golpear é o golpe mas golpear não é dar golpe nem ferir de morte é matar             IV O que golpeia e o golpeado tanto um quanto o outro não são mais que sonho sem realidade alguma             V Se não pens...

O ESPÍRITO DO ZEN de Dogen

DOGEN 1200 – 1256 O zen de mestre a mestre É entendido sem conceitos Se praticado abole o acaso Por ser entendido sem pensamento torna-se naturalmente íntimo    Ao ser concebido sem relatividade é constituído pela realização inconsciente Por ser íntima Sua realização não pode ser impura     Por ser realizado inconscientemente Não pode ser reto nem oblíquo Por não ser reta ou oblíqua a intimidade desveste a si mesma sem consciência própria espontaneamente Por não ser reta ou oblíqua a iluminação realiza a si mesma com seus próprios meios A água é pura e adentra o mais profundo da terra Quando o peixe nessa água nada é o Peixe O céu é vasto e transparente até o cosmos Quando o pássaro em tal céu voa é o Pássaro ...