Pular para o conteúdo principal

Postagens

As árvores da Silveira Martins

                    O pessoal de campanha os chama Paraísos. Ou seriam só os castelhanos? São Cinamomos ?  Não tenho certeza. Autóctonos ou trazidos pelos imigrantes? Nem ideia. Basta começar a escrever sobre algo para ver o tamanho da minha ignorância. Sempre associei o termo Paraíso à sombra fresca, sem manchas de sol, com que a copa dessas árvores protege uma calçada do calor. A como seria uma sombra no paraíso. Acudo ao Antunes por telefone e com ele aprendo que a realidade não tem nada que ver com as minhas associações poéticas. As árvores da Silveira Martins são Tipuana Tipu , a Tipa, nativa daqui, não do Uruguai, esclarece ele. O que me deixa pensando em como é possível uma árvore ser nativa de Sant’Ana sem ser de Rivera.  Decerto vieram do Norte do Estado. Daí o argumento furado usado por um especialista entrevistado no rádio para reforçar as justificativas de corte que as árvores nem daqui são. Como se a Tip...

Os Processos Analógicos I de Juliana Freitas no Braguay

      A impressão inicial é que para cada foto de Juliana Freitas há uma série não exposta. De paisagens e crostas, de cercas e árvores, de folhagens e pedras. Nelas, a ambiguidade é quase uma linguagem, sempre desdobrando a cena em outras. Talvez por causa das camadas de leitura, talvez por deverem algo à pintura, ao cinema e à poesia, são antes ensaios visuais que fotografias.  A imagem, que nunca muda diante de nós, age sobre o olhar movendo constantemente seu ponto de vista.  Isto ou aquilo? Folhas ou pássaros? Melhor ainda, isto e aquilo. Junto, mas não ao mesmo tempo. A magnólia. A aérea de um litoral ou a casca de uma árvore?   Um pintor recorrendo as 21 molduras expostas nas três paredes da galeria tem sua atenção atraída para a gama de tons monocromáticos. E pensa, não tem como evitar, em ismos.   Expressionismos Minimalismos ...

Inferno e paraíso no campo de golfe. O hole in one.

                                                                              Golfe do  = o caminho do golfe                                                                                                                     L. Verdi Uma das mais poderosas experiências que alguém pode ter em um campo de golfe é jogar com a sensação de ser conduzido por uma força externa ao swing. Algo que torna o golfista um instrumento da batida. O voo da bola encontra a linha uma e outra vez apesar do contato...

Golfe e inclusão social

O campo de golfe do Clube Campestre de Livramento está na margem do baixo São Paulo, bairro proletário há já algumas décadas esvaziado pelo fechamento da indústria frigorífica que lhe deu origem. O marasmo das ruas de terra batida do bairro continua no silêncio da cancha. Não há, como em muitos campos de golfe urbanos, aquela bolha florestal rodeada pelos ruídos do tráfego. Aqui, afora uma serra elétrica do lado de lá do arroio da Carolina ou o microfone de um pastor evangélico de garagem, a atmosfera não muda muito. Uma bicicleta, o cavalo da carroça, as motos de baixa cilindrada. E bota canto de galo e latido da cachorrada. A mão de obra remanescente espera que algo aconteça, a zona franca, quem sabe. Ou que a indústria volte. O mais jovem anseia a idade do quartel para depois de servir ir trabalhar na serra ou na capital. Há pencas de crianças que estudam meio turno e de adolescentes do curso da noite vagando sem muito o que fazer além da pelada na pracinh...

Carta aberta a um jovem campeão de golfe

Ontem venceste um dos Abertos do circuito gaúcho contra o melhor golfista da história do campo. (Camelo fora. O Camelo é hors concours.) E eu te escrevo esta carta porque não tenho certeza se valorizas o tamanho do teu feito. Não sei se tens a perspectiva para medir o quanto alcançaste desde que saíste do bairro. E, o mais importante, o quanto ainda tens pela frente. É um feito fazer jogo com o Glauco. Sei que já jogaste com um número suficiente de bons golfistas para avaliar a qualidade do cara que bateste ontem com um birdie de cinco passos pateado seco na borda de dentro do primeiro buraco do desempate. Falo da capacidade inata de repetição do contato que o Glauco tem. Do mesmo contato no drive, no ferro e no putt. Esse ponto doce solto e cheio que as suas mãos dão ao impacto. Solto e cheio, repara nisso. O swing do Glauco é todo elástico, fluido e sensível. Perto dele o teu swing parece um robô enferrujado. Sim, o teu swing é a parte defeituosa do teu golfe. O teu sw...

O Touro Cego

Pela aguada, o touro cego costeia a cerca de pedra De onde a cerca desmorona o vale é estelar, sem céu A curva do arroio repele o véu do orvalho caindo E um frescor de água doce coleia os ésses do ar O pasto se afasta em onda Em espirais os ciprestes